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Proteção contra o VSR: vacina na gestação, nirsevimabe no bebê e o que muda na prática clínica

sexta-feira, 22 de maio de 2026
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Proteção contra o VSR: vacina na gestação, nirsevimabe no bebê e o que muda na prática clínica

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) lançou a campanha Proteção desde o início: todos contra o VSR, com participação de especialistas da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), para orientar profissionais de saúde e a população sobre as novas estratégias de prevenção contra o vírus sincicial respiratório (VSR).

O tema ganhou importância porque, desde o fim de 2025 e o início de 2026, o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a oferecer duas estratégias de proteção contra o VSR: a vacinação da gestante e o anticorpo monoclonal de longa duração para bebês e crianças com maior risco.

A chegada dessas duas ferramentas ampliou a proteção disponível, mas também trouxe dúvidas frequentes na prática clínica: quando vacinar a gestante? Quando indicar o anticorpo monoclonal? As duas medidas são alternativas ou podem ser complementares? E como interpretar diferenças entre bula, Programa Nacional de Imunizações (PNI) e recomendações das sociedades científicas?

A resposta central é que as duas estratégias têm papéis diferentes. A vacina contra o VSR é aplicada na gestante, para que anticorpos maternos sejam transferidos ao bebê pela placenta. Já o nirsevimabe é administrado diretamente ao lactente ou à criança elegível, oferecendo proteção passiva rápida após a aplicação. Em alguns casos, portanto, as estratégias podem se complementar, e não competir entre si.

Confira a seguir os principais pontos para a prática clínica.

Por que o VSR preocupa tanto?

O vírus sincicial respiratório é uma das principais causas de infecção respiratória em lactentes e crianças pequenas, especialmente bronquiolite. A campanha da SBIm destaca que o VSR é a principal causa de bronquiolite em menores de 2 anos e que a doença pode evoluir com tosse, chiado no peito, respiração acelerada e esforço respiratório.

Em bebês pequenos, a bronquiolite pode exigir internação, oxigênio e, nos casos mais graves, cuidados em unidade de terapia intensiva. Segundo os dados apresentados na campanha, mais da metade das hospitalizações ocorre nos primeiros 2 meses de vida, quase 66% até os 3 meses e mais de 80% em menores de 2 anos.

O problema não se limita a crianças classicamente consideradas de alto risco. O material da campanha informa que, entre os casos em menores de 12 meses, 72% ocorrem em crianças previamente saudáveis e 28% em crianças com fatores de risco. Entre bebês de 12 a 24 meses, 48% dos casos ocorrem em crianças saudáveis e 52% em crianças com fatores de risco.

No cenário epidemiológico recente, o VSR também se manteve em destaque entre os vírus respiratórios associados à síndrome respiratória aguda grave (SRAG) no Brasil. Informe do Ministério da Saúde referente à Semana Epidemiológica 16 de 2026 apontou predomínio do VSR nas semanas 13 a 16, com 32% dos casos hospitalizados de SRAG com identificação de vírus respiratórios, seguido por influenza e rinovírus.

Leia sobre "Gripe: o que é", "Bronquiolite em bebês e crianças pequenas" e "Doenças respiratórias".

A vacina contra o VSR na gestação

A vacina contra o VSR indicada para gestantes tem como objetivo proteger o recém-nascido nos primeiros meses de vida, período em que o risco de formas graves é maior. A proteção ocorre por transferência transplacentária de anticorpos maternos.

No Brasil, a vacina Abrysvo®, da Pfizer, é a vacina contra o VSR licenciada para uso em gestantes. Trata-se de uma vacina recombinante contra os subgrupos A e B do VSR. A bula da vacina prevê uso entre 24 e 36 semanas de gestação.

As recomendações do PNI, da SBIm, da SBP e da Febrasgo, no entanto, orientam a vacinação de rotina a partir de 28 semanas de gestação. A SBIm informa que, como a vacina é licenciada pela Anvisa a partir da 24ª semana, o uso entre 24 e 27 semanas pode ser considerado a critério médico, em decisão individualizada.

A explicação para a preferência a partir de 28 semanas está relacionada à transferência de anticorpos. Segundo a Dra. Isabella Ballalai, diretora da SBIm, a passagem mais robusta de anticorpos maternos ao bebê ocorre principalmente no terceiro trimestre; por isso, vacinar a partir desse período aumenta a chance de proteção adequada ao nascimento.

Outro ponto importante é o intervalo entre vacinação e parto. A orientação apresentada é que haja, idealmente, pelo menos 30 dias entre a vacinação da gestante e o nascimento. Quando o parto ocorre menos de 14 dias após a aplicação da vacina, considera-se que a transferência placentária pode não ter sido suficiente para garantir proteção adequada, situação em que o nirsevimabe deve ser considerado para o recém-nascido.

Estudos pós-licenciamento conduzidos em diferentes países reforçaram a efetividade da estratégia, indicando eficácia de 81,8% contra doença grave nos primeiros 3 meses de vida e de 69,4% até os 6 meses.

Nirsevimabe: proteção direta para o bebê

O nirsevimabe é um anticorpo monoclonal de longa duração contra o VSR. Diferentemente da vacina materna, que depende da resposta imune da gestante e da transferência placentária, o nirsevimabe fornece anticorpos diretamente à criança.

A proteção começa rapidamente, em menos de dois dias após a aplicação intramuscular, com concentração máxima em torno do sexto dia. A meia-vida é de aproximadamente 71 dias, permitindo proteção por pelo menos cinco meses com dose única.

A dose varia conforme o peso:

  • 50 mg para lactentes com menos de 5 kg;
  • 100 mg para lactentes com 5 kg ou mais;
  • 200 mg, em duas injeções simultâneas de 100 mg em locais diferentes, para crianças vulneráveis em sua segunda temporada de maior circulação do VSR.

O nirsevimabe pode ser administrado junto com vacinas do calendário, desde que em seringas separadas.

Dados de eficácia dos estudos de vida real realizados no Chile mostraram resultados consistentes com os estudos clínicos, incluindo reduções de 76,4% nas hospitalizações por VSR, de 84,9% nas admissões em UTI e de 47,9% nas hospitalizações por todas as causas.

Saiba mais sobre "Por que vacinar", "Antígenos e anticorpos - o que são" e "Prematuridade e cuidados necessários com os prematuros".

O que o SUS oferece

No SUS, o nirsevimabe passou a integrar a estratégia de prevenção contra o VSR em 2026. O protocolo do Ministério da Saúde incorporou o anticorpo monoclonal para ampliar a proteção de prematuros e crianças com condições de maior vulnerabilidade.

De acordo com o texto-base, a rede pública destina o nirsevimabe a:

  • prematuros com menos de 37 semanas de idade gestacional e menos de 6 meses de idade cronológica, em qualquer época do ano;
  • crianças com comorbidades elegíveis até 24 meses de idade, durante a temporada regional de maior circulação do VSR.

As comorbidades contempladas incluem doença pulmonar crônica da prematuridade, cardiopatia congênita hemodinamicamente significativa, imunocomprometimento, síndrome de Down, fibrose cística, doença neuromuscular e anomalias congênitas das vias respiratórias.

A indicação do SUS vale independentemente de vacinação materna nos grupos contemplados.

Na rede pública, o nirsevimabe está disponível preferencialmente em maternidades com Centros Intermediários de Imunobiológicos Especiais (CIIE), especialmente aquelas que realizam partos de risco. Quando o prematuro nasce em unidade sem estoque, a solicitação deve ser encaminhada pela unidade de saúde de referência ao nível regional ou estadual.

Onde a recomendação da SBIm vai além do PNI

Um dos pontos mais importantes para a prática clínica é entender que o PNI, a bula e os calendários das sociedades científicas não têm exatamente a mesma função.

A bula reflete a indicação regulatória aprovada com base nos estudos apresentados à Anvisa no momento do registro. O PNI organiza uma política pública, que precisa considerar evidência, impacto populacional, logística, disponibilidade e custo. Já as recomendações da SBIm podem incorporar atualizações científicas e avaliação individual de risco de forma mais ampla.

Por isso, há situações em que a SBIm recomenda ou admite o uso do nirsevimabe mesmo fora da cobertura do PNI.

Segundo o texto-base, a SBIm indica nirsevimabe para:

  • lactentes menores de 8 meses filhos de mães não vacinadas;
  • filhos de mães imunocomprometidas, mesmo que vacinadas;
  • bebês nascidos menos de 14 dias após a vacinação materna;
  • prematuros entre 6 e 12 meses.

A SBIm também admite a possibilidade de nova dose em prematuros menores de 12 meses que tenham recebido a primeira dose há mais de seis meses, em decisão compartilhada com a família. Essa situação não está prevista em bula.

Um exemplo prático é o de um bebê prematuro nascido em 2025, que recebeu nirsevimabe ao nascer e chega à temporada de 2026 com 7, 8 ou 9 meses. Pela lógica do PNI, pode não haver previsão de nova dose. Pela recomendação da SBIm, porém, a dose adicional pode ser considerada se o bebê ainda tiver menos de 12 meses e já tiverem se passado mais de seis meses desde a aplicação anterior.

Decisão compartilhada e uso fora de bula

A diferença entre bula, PNI e recomendações de sociedades científicas exige interpretação clínica. Segundo a Dra. Mônica Levi, presidente da SBIm, cada uma dessas fontes segue uma lógica própria, e o médico não deve tratar nenhuma delas isoladamente como resposta automática para todos os casos.

A especialista ressalta que o PNI é um dos calendários públicos gratuitos mais importantes do mundo, mas nem sempre inclui tudo o que seria ideal do ponto de vista individual. Ao mesmo tempo, recomendações científicas mais amplas podem não estar acessíveis a toda a população.

Na prática, isso significa que o profissional precisa ponderar idade, prematuridade, comorbidades, vacinação materna, intervalo entre vacina e parto, sazonalidade regional, risco epidemiológico e acesso às estratégias disponíveis.

A decisão compartilhada com a família é especialmente importante quando se considera uso fora das indicações da bula ou fora da cobertura prevista pelo PNI, como em alguns grupos sem fatores de risco formais, mas com possível benefício individual.

Palivizumabe e transição para nirsevimabe

O nirsevimabe está em processo de substituir o palivizumabe no SUS. O palivizumabe é outro anticorpo monoclonal contra o VSR, mas exige administração mensal durante a temporada de risco.

Em 2026, ainda há estoques remanescentes de palivizumabe. A orientação é que esquemas já iniciados com palivizumabe sejam concluídos com o mesmo produto, nas cinco doses previstas. Na falta de palivizumabe, uma dose de nirsevimabe é indicada para crianças elegíveis.

Veja também sobre "Seis doenças típicas do inverno" e "O que são vírus".

Recomendações práticas

A partir das informações apresentadas pela campanha e pelas recomendações técnicas, os principais pontos para a prática clínica são:

Vacinação materna contra o VSR

  • Recomendada de rotina a partir de 28 semanas de gestação.
  • Pode ser administrada em qualquer época do ano.
  • Deve ser aplicada uma dose por gestação.
  • A bula prevê uso entre 24 e 36 semanas.
  • Entre 24 e 27 semanas, o uso pode ser considerado na rede privada por decisão médica individualizada.
  • Idealmente, deve haver pelo menos 30 dias entre vacinação e parto.
  • Se o parto ocorrer menos de 14 dias após a vacina, considerar nirsevimabe para o recém-nascido.

Nirsevimabe

  • Indicado para proteção direta do bebê ou da criança elegível.
  • Início de proteção em menos de dois dias.
  • Duração de pelo menos cinco meses.
  • Dose de 50 mg para lactentes com menos de 5 kg.
  • Dose de 100 mg para lactentes com 5 kg ou mais.
  • Dose de 200 mg, em duas aplicações simultâneas, para crianças vulneráveis em segunda temporada.
  • Pode ser coadministrado com vacinas do calendário, em seringas separadas.

Grupos contemplados no SUS

  • Prematuros com menos de 37 semanas e menos de 6 meses de idade cronológica.
  • Crianças com comorbidades elegíveis até 24 meses, durante a temporada regional do VSR.

Grupos em que a SBIm amplia a indicação

  • Lactentes menores de 8 meses de mães não vacinadas.
  • Filhos de mães imunocomprometidas, mesmo que vacinadas.
  • Recém-nascidos de mães vacinadas menos de 14 dias antes do parto.
  • Prematuros entre 6 e 12 meses.
  • Possível nova dose para prematuros menores de 12 meses, se a dose anterior tiver sido aplicada há mais de seis meses.

Conclusão

A introdução da vacina contra o VSR para gestantes e do nirsevimabe para bebês e crianças vulneráveis muda a prevenção das formas graves da infecção no Brasil. A proteção pode começar ainda antes do nascimento, por meio da vacinação materna, e ser reforçada após o parto em situações de maior risco ou quando a transferência de anticorpos maternos pode ter sido insuficiente.

A principal mensagem para obstetras, pediatras e demais profissionais de saúde é que as duas estratégias não devem ser vistas apenas como opções concorrentes. Elas atuam em momentos diferentes e podem ser complementares, dependendo do risco individual, da idade da criança, da história gestacional, da presença de comorbidades e do contexto epidemiológico.

A campanha Proteção desde o início: todos contra o VSR reforça justamente essa ideia: proteger contra o VSR exige orientação adequada durante a gestação, identificação dos bebês que precisam de proteção adicional e decisões clínicas que integrem bula, PNI, recomendações científicas e realidade de acesso.

 

Fontes:
Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), campanha Proteção desde o início: todos contra o VSR.
SBIm/SBP/Febrasgo, nota técnica conjunta sobre imunização contra o VSR.
Ministério da Saúde, protocolo de uso do nirsevimabe.
Ministério da Saúde, estratégia de vacinação contra o VSR em gestantes.
Medscape, notícia publicada em 15 de maio de 2026.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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