Vacina de DNA feita sob medida traz esperança para o tratamento de um câncer cerebral de alta letalidade

Uma vacina personalizada para tratar o glioblastoma, um câncer cerebral incurável e de crescimento rápido que afeta cerca de seis em cada 100.000 pessoas no Brasil (dados de 2012 a 2021), é segura e desencadeia respostas imunes robustas e amplas. Essas respostas parecem aumentar a sobrevida livre de recorrência em um subgrupo de pacientes após a cirurgia, segundo um ensaio clínico de fase inicial liderado em conjunto por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington (WashU Medicine), em St. Louis, EUA.
Em pacientes com uma forma particularmente agressiva de glioblastoma, a vacina não causou efeitos colaterais graves e prolongou a sobrevida global em comparação com os resultados históricos observados após o tratamento padrão (cirurgia seguida de quimiorradioterapia). Um paciente que sobreviveu a longo prazo permanece livre de recorrência quase cinco anos depois.
Os resultados do ensaio de fase 1, realizado no Siteman Cancer Center (sediado no Barnes-Jewish Hospital e na WashU Medicine), foram publicados na revista Nature Cancer. O estudo foi liderado em conjunto pelo Mass General Brigham e pela Geneos Therapeutics, uma empresa de biotecnologia sediada na Filadélfia, EUA.
“Estamos extremamente animados com esses resultados”, disse Tanner M. Johanns, MD, PhD, autor principal do estudo e professor assistente na Divisão de Oncologia do Departamento de Medicina John T. Milliken, na WashU Medicine. “Esse tipo de vacina é inédito para o glioblastoma, e é empolgante pensar em como podemos aproveitar essa plataforma de vacina terapêutica de DNA personalizada para gerar um impacto positivo na vida de pacientes que lutam contra essa doença. Além disso, terapias combinadas que utilizam essa plataforma personalizada estão sendo investigadas atualmente na WashU para verificar se os resultados podem ser ainda melhores.”
O novo tratamento utiliza moléculas de DNA modificadas, projetadas para estimular o sistema imunológico do paciente a combater o câncer. O tumor de cada paciente apresenta proteínas exclusivas daquele tumor; a vacina ativa o sistema imunológico para reconhecer essas proteínas e eliminar as células tumorais.
Johanns explicou que, embora algumas imunoterapias voltadas para o glioblastoma tenham se mostrado promissoras em estudos anteriores, elas acabaram sendo ineficazes para retardar ou prevenir a recorrência de forma significativa. Isso provavelmente ocorre porque o glioblastoma pode evoluir e escapar do ataque imunológico; no entanto, a vacina desenvolvida por Johanns foi projetada para ajudar o sistema imunológico a reconhecer diversos alvos nas células cancerígenas. Assim, mesmo que o tumor perca vários desses alvos, a vacina ainda consegue gerar respostas contra muitos outros.
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Além disso, o glioblastoma é classificado como um tumor “frio”, o que significa que o ambiente tumoral consegue se esconder do sistema imunológico. A vacina contra o câncer utilizada neste estudo, desenvolvida pela Geneos Therapeutics, transforma tumores “frios” em tumores “quentes”, tornando-os suscetíveis à eliminação mediada pelo sistema imune. Assim, a vacina consegue melhorar a resposta imunológica do paciente ao atacar proteínas presentes na célula cancerígena e tornar o ambiente interno do tumor mais favorável à ativação do sistema imune.
“Escolhemos uma plataforma baseada em DNA porque ela nos daria a oportunidade de atacar mais proteínas do câncer do que qualquer vacina havia atacado anteriormente”, disse Johanns. “Nosso raciocínio era que, se conseguíssemos gerar uma gama mais ampla de respostas imunológicas contra essas proteínas, isso poderia resultar em uma vacina mais potente em comparação com outras plataformas de vacinas que visam um número mais limitado de proteínas.”
Essa plataforma de vacina baseada em DNA conseguiu ativar o sistema imunológico de cada paciente para identificar até 40 proteínas cancerígenas específicas do tumor de cada indivíduo, o dobro da quantidade de proteínas visadas por qualquer terapia com vacina contra o câncer até o momento.
A vacina do estudo, chamada GNOS-PV01, tem como alvo os chamados neoantígenos – proteínas exclusivas das células cancerígenas de cada paciente que podem ser reconhecidas por suas células do sistema imunológico. Os neoantígenos foram identificados e selecionados por meio de um algoritmo desenvolvido na WashU Medicine pelos biólogos computacionais e coautores Obi Griffith, PhD, professor de medicina, e Malachi Griffith, PhD, professor associado de medicina, ambos da Divisão de Oncologia e pesquisadores do Siteman. Johanns e seus colegas selecionaram neoantígenos de diferentes regiões do tumor do paciente, um método incorporado para aumentar ainda mais o número de proteínas das células cancerígenas visadas pela vacina.
O estudo incluiu nove pacientes adultos recém-diagnosticados com glioblastoma. Todos foram tratados no Siteman Cancer Center. A equipe preparou uma molécula de DNA sintético que codificava as informações exclusivas dos neoantígenos do tumor de cada paciente. A vacina foi produzida na Unidade de Terapia Biológica do Siteman durante o período de recuperação pós-operatória e o tratamento de radioterapia subsequente.
As injeções da vacina começaram, em média, 10 semanas após a cirurgia e foram administradas a cada três semanas durante um período de nove semanas; posteriormente, as doses foram aplicadas a cada nove semanas, enquanto os pacientes puderam participar. Todos os participantes, exceto um que fazia uso de corticoides imunossupressores, apresentaram aumento na atividade das células imunológicas, indicando uma resposta à vacinação.
Dois terços dos pacientes não apresentaram progressão do câncer seis meses após as cirurgias, e dois terços sobreviveram por um ano. Normalmente, cerca de 40% dos pacientes com glioblastoma atingem qualquer uma dessas marcas.
Um terço dos participantes continuava vivo após dois anos, o que representa o dobro da taxa histórica de sobrevida para essa população de pacientes. Uma participante permanece viva e sem recidiva até hoje, quase cinco anos após o diagnóstico inicial.
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Confira a seguir o resumo do artigo publicado.
Vacinação adjuvante personalizada com DNA de neoantígenos multivalentes para glioblastoma com MGMT não metilado: um estudo de fase 1
O glioblastoma é uma doença fatal com um prognóstico mediano de 12 a 18 meses. Estudos recentes demonstraram resultados promissores com o uso de vacinas baseadas em neoantígenos para estimular respostas imunes direcionadas ao glioblastoma, mas a imunogenicidade geral tem sido baixa.
Apresentou-se aqui os resultados de um estudo clínico de fase 1, aberto e de braço único (GT-20), para avaliar a segurança e a viabilidade (desfechos primários), bem como a imunogenicidade e a atividade clínica preliminar (desfechos secundários), da monoterapia com GNOS-PV01, uma vacina terapêutica personalizada contra o câncer baseada em DNA, administrada após ressecção cirúrgica e radioterapia em pacientes com glioblastoma com MGMT não metilado.
O estudo GT-20 vacinou nove pacientes, utilizando até 40 neoantígenos por paciente (variação de 17 a 40), sem causar eventos adversos graves, toxicidades inesperadas ou toxicidades limitantes da dose. A vacina induziu a ativação e a expansão de células T periféricas circulantes em todos os pacientes avaliados, exceto em um que estava sendo tratado com dexametasona.
Os desfechos secundários incluíram a avaliação da sobrevida livre de progressão em 6 meses e da sobrevida global em 12 meses; ambas foram observadas em 66,7% dos pacientes. A mediana da sobrevida livre de progressão foi de 8,5 meses; a mediana da sobrevida global foi de 16,3 meses; e a sobrevida em 24 meses foi de 33%, incluindo um paciente sobrevivente a longo prazo que permanecia vivo 4 anos após a cirurgia inicial.
Este estudo atingiu os desfechos pré-estabelecidos e corrobora o uso da GNOS-PV01 como um componente potencialmente impactante na imunoterapia do glioblastoma.
Fontes:
Nature Cancer, publicação em 12 de maio de 2026.
Siteman Cancer Center, notícia publicada em 12 de maio de 2026.
