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Ter um smartphone aos 12 anos está associado a maior risco de sintomas de transtornos alimentares

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Ter um smartphone aos 12 anos está associado a maior risco de sintomas de transtornos alimentares

Ao caminhar pela rua, você verá que a maioria das pessoas está segurando um smartphone. Dos idosos às crianças pequenas, as telas passaram a ocupar grande parte de nossas vidas. Embora as crianças mais novas tenham alguma supervisão de adultos sobre como utilizam seus telefones, dados recentes sugerem que 7 em cada 10 crianças de 12 anos de idade possuem um smartphone próprio.

Cientistas estão cada vez mais preocupados com esse padrão, pois pesquisas associaram a posse precoce de smartphones e o tempo elevado de exposição às telas a maiores taxas de depressão, ansiedade e preocupações com a imagem corporal, que podem levar a transtornos alimentares.

Um estudo recente publicado no JAMA Network Open examinou se ter um smartphone aos 12 anos poderia estar associado ao desenvolvimento de sintomas de transtornos alimentares mais tarde na adolescência entre jovens dos Estados Unidos.

Os pesquisadores analisaram dados de 8.957 adolescentes de 21 centros nos Estados Unidos que participaram do Estudo de Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente (Adolescent Brain Cognitive Development Study, ABCD). Os participantes foram entrevistados para identificar sintomas de transtornos alimentares, incluindo compulsão alimentar, comportamentos prejudiciais à saúde para evitar o ganho de peso, preocupações com o aumento de peso e associação da autoestima ao peso corporal.

Aos 14 anos, quase 1 em cada 4 adolescentes que possuíam um smartphone relatou ter apresentado pelo menos um sintoma de transtorno alimentar. As diferenças foram ainda mais notáveis entre os adolescentes de 12 anos. Aqueles que possuíam um smartphone nessa idade tinham uma probabilidade 61% maior de apresentar compulsão alimentar do que aqueles que não possuíam. Eles também tinham uma probabilidade mais de duas vezes maior de associar sua autoestima ao peso corporal.

Leia sobre "O que é compulsão alimentar", "Ansiedade e alimentação", "Anorexia nervosa" e "Bulimia nervosa".

O impacto dos transtornos alimentares

Os transtornos alimentares vão muito além da seletividade alimentar ou de hábitos alimentares incomuns. São condições de saúde mental graves e complexas que podem ter consequências devastadoras, incluindo milhares de mortes em todo o mundo. O que torna isso especialmente preocupante é a vulnerabilidade dos adolescentes. Milhões de jovens em todo o mundo vivem com transtornos alimentares, enquanto mais de 1 em cada 5 adolescentes apresenta comportamentos alimentares desordenados.

Os anos entre os 10 e os 14 anos de idade trazem mudanças drásticas à vida de uma criança. Seus corpos passam por transformações que não apenas as deixam confusas, mas também as tornam mais propensas a preocupações intensas com a imagem corporal. A puberdade é o período em que as crianças começam a buscar a aprovação dos colegas em relação à sua aparência, à maneira como se vestem, ao que comem e até mesmo aos hobbies que praticam. Suas habilidades de autorregulação ainda estão em desenvolvimento.

Um smartphone pessoal oferece aos jovens acesso privado, 24 horas por dia, sete dias por semana, a feeds controlados por algoritmos que apresentam constantemente comparações baseadas na aparência e conteúdos que promovem transtornos alimentares. Os pesquisadores também observaram uma discrepância entre o que os adolescentes sentem e o que seus pais relatam. Devido a essa discrepância, os pais acabam subestimando os sintomas internalizados de ansiedade, retraimento emocional e outros transtornos de saúde mental de seus filhos.

Estudos anteriores associaram o maior uso de telas e redes sociais a comportamentos alimentares desordenados e à insatisfação corporal. No entanto, pouco se sabe sobre como ter um telefone pessoal em uma idade precoce afeta essas questões. Para obter uma visão mais clara, os pesquisadores coletaram dados de adolescentes de diferentes localidades e origens raciais, étnicas e socioeconômicas, para garantir que a amostra refletisse a população dos Estados Unidos.

Os pais ou responsáveis informaram se seus filhos possuíam um smartphone próprio e, em caso afirmativo, quantos anos tinham quando receberam o primeiro aparelho. As crianças então realizaram uma entrevista psiquiátrica computadorizada aos 12 anos e novamente dois anos depois, aos 14 anos, permitindo que os pesquisadores acompanhassem os sintomas de transtornos alimentares ao longo do tempo.

Que efeitos um smartphone pode ter?

Adolescentes de 12 anos que possuíam um smartphone pessoal apresentaram uma probabilidade significativamente maior de desenvolver sintomas de transtornos alimentares, tanto naquele momento quanto dois anos depois, aos 14 anos. Quase 70% (69,5%) dos adolescentes de 12 anos do estudo nacional possuíam um smartphone próprio, e eles apresentaram uma probabilidade 36% maior de relatar qualquer sintoma de transtorno alimentar, de modo geral, em comparação com aqueles que não possuíam. As meninas relataram taxas significativamente maiores de preocupação com o ganho de peso do que os meninos.

O acompanhamento de dois anos, realizado aos 14 anos, constatou que possuir um smartphone aos 12 anos foi preditivo de um risco 67% maior de sintomas de compulsão alimentar e de um risco 50% maior de utilização de comportamentos compensatórios inadequados, como jejum extremo ou purgação, para evitar o ganho de peso.

A tabela a seguir apresenta as associações entre a posse de smartphone aos 12 anos e os sintomas de transtornos alimentares, tanto na análise transversal, aos 12 anos, quanto na análise longitudinal, aos 14 anos.

Sintoma de transtorno alimentar Análise transversal Análise longitudinal
RP (IC 95%) Valor de P RR (IC 95%) Valor de P
Compulsão alimentar 1,61 (1,17–2,23) 0,003 1,67 (1,11–2,52) 0,01
Comportamentos compensatórios inadequados 1,31 (0,94–1,83) 0,11 1,50 (1,16–1,94) 0,002
Preocupação com o ganho de peso 1,30 (0,57–2,95) 0,53 1,02 (0,51–2,05) 0,95
Autoestima associada ao peso 2,21 (1,03–4,74) 0,04 2,03 (1,28–3,19) 0,002
Qualquer sintoma 1,36 (1,09–1,70) 0,007 1,49 (1,19–1,87) <0,001
RP: razão de prevalência; RR: risco relativo; IC 95%: intervalo de confiança de 95%. Análise transversal: sintomas avaliados aos 12 anos. Análise longitudinal: sintomas avaliados aos 14 anos, considerando a posse de smartphone aos 12 anos. Fonte: JAMA Network Open.

 

Os resultados reforçam o argumento de que os pais devem adiar o primeiro smartphone de um adolescente e adaptar o acesso a conteúdos de acordo com sua maturidade. Os autores também sugerem ferramentas como o Plano de Mídia Familiar da Academia Americana de Pediatria (AAP) para ajudar as famílias a desenvolver hábitos saudáveis de uso de mídias em casa. No âmbito das políticas públicas, as evidências também apontam para a necessidade de regras e recomendações mais claras sobre a posse de smartphones e o acesso às redes sociais durante o início da adolescência.

Saiba mais sobre "Os adolescentes e o mundo virtual", "O perigo das dietas para emagrecer" e "Visão geral de alguns transtornos alimentares".

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Posse de smartphone e sintomas de transtornos alimentares no início da adolescência

Os adolescentes têm passado a possuir smartphones em idades cada vez mais precoces. As associações entre a idade em que se passa a possuir um smartphone e o risco de transtornos alimentares entre adolescentes ainda não haviam sido examinadas.

O objetivo deste estudo, portanto, foi examinar as associações transversais e longitudinais entre a idade em que se passa a possuir um smartphone e os sintomas de transtornos alimentares na adolescência.

O Estudo de Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente (ABCD) utilizou uma amostra estratificada e probabilística de escolas e recrutou participantes de 21 centros de estudo nos Estados Unidos. Foi realizada uma sobreamostragem de escolas com base em raça, etnia, condição socioeconômica e grau de urbanização, para minimizar vieses sistemáticos de amostragem no recrutamento. Os percentuais foram ponderados com base nos dados do American Community Survey para representar estimativas populacionais. As análises transversais e longitudinais de dois anos aplicaram modelos lineares generalizados com distribuição de Poisson e função de ligação logarítmica aos dados do Estudo ABCD dos anos 2 a 6 (2018–2024). Os dados foram analisados entre 2025 e 2026.

A exposição do estudo foi a posse de smartphone aos 12 anos de idade (sim ou não).

Os principais desfechos e medidas foram sintomas de compulsão alimentar, comportamentos compensatórios inadequados para evitar o ganho de peso, preocupação com o ganho de peso, autoestima associada ao peso e presença de qualquer sintoma de transtorno alimentar, examinados separadamente aos 12 e aos 14 anos de idade (sim ou não).

Dos 8.957 participantes (4.712 [51,8%] do sexo masculino), 6.225 (69,5%) possuíam um smartphone aos 12 anos de idade. Entre os 6.225 participantes, os sintomas de transtornos alimentares mais prevalentes foram os sintomas de compulsão alimentar (315 [9,2%]) aos 12 anos de idade e os comportamentos compensatórios (494 [20,5%]) aos 14 anos de idade.

Em análises ajustadas para covariáveis, possuir um smartphone aos 12 anos de idade esteve associado, na análise transversal, a uma maior prevalência de sintomas de compulsão alimentar (razão de prevalência [RP], 1,61 [IC 95%, 1,17–2,23]; P = 0,003), de associação da autoestima ao peso (RP, 2,21 [IC 95%, 1,03–4,74]; P = 0,04) e de qualquer sintoma de transtorno alimentar (RP, 1,36 [IC 95%, 1,09–1,70]; P = 0,007).

Em análises ajustadas para covariáveis, possuir um smartphone aos 12 anos de idade esteve associado longitudinalmente a um maior risco de sintomas de compulsão alimentar (risco relativo [RR], 1,67 [IC 95%, 1,11–2,52]; P = 0,01), de utilização de comportamentos compensatórios inadequados para evitar o ganho de peso (RR, 1,50 [IC 95%, 1,16–1,94]; P = 0,002), de associação da autoestima ao peso (RR, 2,03 [IC 95%, 1,28–3,19]; P = 0,002) e de qualquer sintoma de transtorno alimentar (RR, 1,49 [IC 95%, 1,19–1,87]; P <0,001).

Neste estudo de coorte com adolescentes dos Estados Unidos, a posse de smartphone esteve associada a uma variedade de sintomas de transtornos alimentares, sugerindo que a idade em que se passa a possuir um smartphone pode estar associada ao risco desses transtornos. Pesquisas futuras são necessárias para caracterizar os mecanismos subjacentes a essas associações observadas.

Veja também sobre "Manual SBP: Menos telas, mais saúde", "O que é autoestima e como melhorá-la" e "Síndrome da distorção da imagem corporal".

 

Fontes:
JAMA Network Open, Vol. 9, Nº 9, em 25 de setembro de 2026.
Medical Xpress, notícia publicada em 1º de outubro de 2026.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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