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Reduzir o consumo de açúcar durante o tratamento com antibióticos pode proteger o microbioma intestinal

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Reduzir o consumo de açúcar durante o tratamento com antibióticos pode proteger o microbioma intestinal

Evitar alimentos açucarados durante um tratamento com antibióticos pode ajudar a proteger a diversidade do microbioma intestinal, de acordo com um novo estudo publicado na revista Nature.

A variedade de bactérias presentes no intestino desempenha um papel fundamental no funcionamento da digestão e na manutenção da saúde física e mental. No entanto, essa comunidade diversificada pode ser perturbada pelos antibióticos, levando a problemas digestivos, fadiga e exacerbações de doenças de pele. Evitar essa perturbação é particularmente importante para pessoas com câncer, pois uma maior diversidade do microbioma intestinal tem sido associada a melhores taxas de sobrevida.

Para investigar essa questão, Jonathan Peled, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, e seus colegas estudaram 158 pessoas com cânceres hematológicos. Os participantes ficaram hospitalizados por várias semanas enquanto recebiam quimioterapia para suprimir seus sistemas imunológicos antes de uma infusão de células-tronco. Para prevenir possíveis infecções, cada pessoa recebeu pelo menos um tipo de antibiótico.

Os pesquisadores monitoraram as alterações nos microbiomas intestinais dos participantes por meio da análise de amostras de fezes. Um aspecto crucial foi que eles também sabiam exatamente o que as pessoas haviam comido e quando. Cada vez que um participante solicitava uma refeição à cozinha do hospital, entre 12 dias antes do transplante de células-tronco e 49 dias depois, a bandeja de comida chegava acompanhada de um questionário para registrar a quantidade consumida de cada item.

“Conseguimos coletar esses dados com frequência e preencher as lacunas”, diz Peled. “Suponha que um paciente tenha comido metade de uma lasanha. Conhecemos a receita, o tamanho da porção padrão e as informações nutricionais de cada ingrediente. Acho que este é o mais próximo que alguém já chegou de registrar com precisão tudo o que entra no organismo e relacionar isso ao que sai.”

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Os pesquisadores registraram mais de 40 mil itens alimentares, criando um conjunto de dados com um nível de detalhamento raramente possível em pesquisas sobre nutrição. Ao analisá-lo em busca de padrões, descobriram que as pessoas que consumiam mais alimentos ricos em açúcar enquanto tomavam antibióticos acabavam apresentando um microbioma menos diversificado.

O uso de antibióticos nas 48 horas anteriores à coleta de uma amostra de fezes foi associado a uma redução na diversidade do microbioma. Essa redução variou de pessoa para pessoa, mas, para cada aumento de 100 gramas no consumo de alimentos ou bebidas ricos em açúcar (equivalente a um milk-shake grande) durante esse período, a queda na diversidade bacteriana total foi, em média, 24% maior.

A combinação de uma dieta açucarada com o tratamento com antibióticos também levou ao aumento da quantidade de bactérias Enterococcus faecium, que podem atuar como patógenos e causar infecções hospitalares graves.

O açúcar presente no intestino agrava os problemas causados pelos antibióticos, afirma Jonas Schluter, da NYU Langone Health, em Nova York, e integrante da equipe do estudo. Ao eliminar muitas bactérias intestinais, os antibióticos perturbam o equilíbrio do microbioma, deixando algumas poucas cepas sobreviventes, que não são necessariamente as mais benéficas para a nossa saúde. “Elas sobreviveram ao ataque e então estamos alimentando-as com combustível de foguete.”

“Faz sentido que potenciais patógenos sejam favorecidos pelo açúcar”, diz Nicola Segata, da Universidade de Trento, na Itália. Isso poderia favorecer diretamente os patógenos que prosperam com o açúcar, mas que talvez não consigam degradar fibras, e também favorecê-los indiretamente, porque as bactérias benéficas com as quais competem não estão recebendo as fibras de que precisam para se recuperar do ataque dos antibióticos, explica ele.

Experimentos com camundongos reforçaram a ideia de que o açúcar era responsável por favorecer o crescimento de bactérias potencialmente patogênicas. Camundongos que receberam o antibiótico biapenem enquanto consumiam uma dieta rica em sacarose apresentaram um aumento de 16,3 vezes na população de Enterococcus em seus intestinos até o terceiro dia e de 33,4 vezes até o sexto dia. Os camundongos que consumiram a dieta rica em açúcar sem receber antibióticos mantiveram sua diversidade bacteriana.

Peled afirma que eles observaram efeitos semelhantes quando os camundongos foram alimentados com um smoothie de frutas comercial, que continha altos níveis de frutose.

O trabalho tem implicações tanto dentro quanto fora dos hospitais. Os médicos frequentemente recomendam smoothies ou milk-shakes a pessoas com câncer para aumentar a ingestão nutricional. Essa recomendação talvez precise ser reavaliada se o indivíduo também estiver tomando antibióticos, afirma Peled.

Evitar alimentos açucarados durante o uso de antibióticos também pode ser relevante para a população em geral. “Muitos de nós estamos motivados a encontrar maneiras de proteger o microbioma quando nós ou nossos filhos recebemos uma prescrição de antibióticos. Limitar a ingestão de alimentos açucarados oferece uma possível maneira de fazer isso”, diz Peled. “É muito viável, provavelmente apresenta toxicidade muito baixa, é muito bem tolerado e muito econômico.”

Ele ressalta que as recomendações alimentares padrão incluem evitar o consumo excessivo de açúcar, portanto, isso é algo que todos nós já deveríamos tentar fazer.

Uma oportunidade para as bactérias recolonizarem o intestino surge quando os antibióticos perturbam o microbioma intestinal, afirma Segata, que demonstrou que bebês adquirem novas cepas de bactérias mais rapidamente após um tratamento com antibióticos. Para estimular o retorno de uma ampla variedade de bactérias benéficas, ele recomenda consumir uma grande diversidade de alimentos de origem vegetal.

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Alimentos ricos em açúcar agravam a perturbação do microbioma induzida por antibióticos

A alimentação molda a composição da microbiota intestinal; no entanto, os efeitos específicos de diferentes grupos alimentares sobre a dinâmica do microbioma ainda não estão claros, particularmente em circunstâncias de perturbação extrema.

Neste estudo, avaliou-se a relação entre a alimentação e a dinâmica do microbioma intestinal por meio do acompanhamento preciso de 9.419 refeições consumidas por 173 pacientes hospitalizados para transplante de células hematopoiéticas e da análise das alterações subsequentes no microbioma.

A inferência bayesiana aplicada aos dados de 158 pacientes com amostras longitudinais pareadas do microbioma revelou que a ingestão de doces e açúcares durante a exposição a antibióticos foi preditiva de um agravamento da disbiose microbiana, manifestado por uma redução da diversidade alfa (α) e uma maior expansão do patobionte Enterococcus.

Experimentos com camundongos também demonstraram que a suplementação com sacarose aumentou e prolongou a expansão de Enterococcus induzida por antibióticos.

Esses dados sugerem que evitar uma dieta rica em açúcares simples durante o tratamento com antibióticos pode atenuar a perturbação da microbiota. Estudos adicionais em coortes independentes oferecerão oportunidades para generalizar esses achados e avaliar intervenções destinadas a preservar a microbiota.

Veja também sobre "10 hábitos que ajudam a tornar a alimentação mais saudável", "Nutrientes" e "As relações entre intestino e cérebro".

 

Fontes:
Nature, publicação em 30 de setembro de 2026.
New Scientist, notícia publicada em 30 de setembro de 2026.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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