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Primeiro transplante de fezes para tratar alergia alimentar em humanos apresenta resultados "animadores"

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Primeiro transplante de fezes para tratar alergia alimentar em humanos apresenta resultados "animadores"

Seis pessoas com alergia grave a amendoim passaram a tolerar o alimento após receberem um transplante de microbiota fecal, segundo um estudo publicado na revista Science Translational Medicine.

Esse pequeno estudo, envolvendo 15 pessoas, fornece a primeira evidência de que transplantes de microbiota fecal – a transferência de bactérias intestinais obtidas a partir de amostras de fezes de doadores saudáveis – podem tratar alergias alimentares. “Até agora, isso havia sido observado apenas em modelos com camundongos. Agora temos resultados em humanos. E isso é animador”, afirma Cathryn Nagler, pesquisadora de imunologia da Universidade de Chicago, em Illinois, EUA.

Antes de participarem do estudo, os voluntários não conseguiam ingerir mais de 100 miligramas de proteína de amendoim, quantidade encontrada em menos de meio amendoim, sem apresentar uma reação imunológica. Quatro meses após o transplante, uma pessoa conseguiu consumir 300 miligramas de proteína de amendoim, e cinco pessoas conseguiram ingerir 600 miligramas ou mais, o equivalente a cerca de dois amendoins e meio. “Ver qualquer tipo de eficácia em humanos é algo notável”, acrescenta Nagler.

As opções de tratamento para alergias alimentares são limitadas; a recomendação padrão é que as pessoas evitem o alérgeno e carreguem uma injeção de adrenalina para uso caso sejam expostas a ele e apresentem uma reação imunológica.

Médicos afirmam que o efeito duradouro observado em alguns participantes do estudo é importante. “O potencial de essa terapia proporcionar um benefício de longo prazo é realmente muito empolgante”, diz Edwin Kim, alergista da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. “Esse tem sido um desafio com as outras terapias atuais: o benefício diminui com o tempo, exigindo tratamento e exposição contínuos para ser mantido.”

Saiba mais sobre "Transplante de fezes ou terapia bacteriana", "O que é e como acontece a alergia alimentar" e "Microbioma intestinal humano".

Algumas pesquisas associaram alergias alimentares a níveis baixos de certas bactérias intestinais. Estudos com camundongos também demonstraram que o tratamento dos animais com grupos de várias espécies de bactérias intestinais ajudava a controlar as alergias alimentares. Isso levou pesquisadores a sugerir que transplantes de microbiota fecal provenientes de pessoas sem alergias alimentares, contendo uma ampla variedade de bactérias intestinais, poderiam atenuar a resposta do sistema imunológico em pessoas alérgicas.

Nesse novo estudo, os pesquisadores administraram aos participantes uma pílula inodora e insípida contendo bactérias intestinais de voluntários saudáveis ​​que não tinham alergia a amendoim. A maioria dos participantes recebeu 36 pílulas em um único dia, sem apresentar efeitos colaterais graves. Cinco dos participantes também receberam antibióticos durante quatro dias antes do transplante.

Os autores sugerem que as bactérias podem não ter se estabelecido nas nove pessoas que não responderam ao tratamento, possivelmente devido a diferenças relacionadas ao sexo (cinco das seis pessoas que responderam eram homens), ao fato de as bactérias terem sido administradas em um único dia ou porque a maioria das pessoas que não responderam também não recebeu antibióticos antes do tratamento.

Os pesquisadores também transplantaram bactérias intestinais de amostras de fezes dos participantes para camundongos e descobriram que as bactérias de pessoas que responderam ao tratamento também protegeram os camundongos do desenvolvimento de alergias a uma proteína do ovo. Em contrapartida, os camundongos que receberam bactérias de pessoas que permaneceram altamente sensíveis desenvolveram alergia à proteína do ovo.

Como os estudos com camundongos testaram um alérgeno diferente, é provável que o tratamento com transplante fecal funcione para mais do que apenas alergias a amendoim, diz o coautor do estudo Talal Chatila, imunologista da Harvard Medical School em Boston, Massachusetts.

A equipe identificou uma espécie de bactéria, Bacteroides ovatus, que ofereceu proteção aos camundongos contra o desenvolvimento de alergia. Identificar uma bactéria específica capaz de tornar o sistema imunológico menos reativo “é o ‘Santo Graal’ da alergia alimentar”, diz Chatila.

No entanto, os pesquisadores ressaltam que o transplante de bactérias intestinais para tratar alergias alimentares ainda está longe de ser utilizado na prática clínica. Com financiamento suficiente, envolvimento de capital de risco e entusiasmo, “levaria cerca de dez anos” para que as bactérias fossem aprovadas pelos órgãos reguladores, diz Alexander Khoruts, gastroenterologista da Universidade de Minnesota em Minneapolis, que agora colabora com a equipe responsável pelo pequeno estudo clínico.

Os autores estão prestes a concluir o recrutamento para um segundo estudo, maior, que esperam que forneça mais pistas sobre quais outras bactérias têm um efeito positivo e a quem o coquetel de bactérias provavelmente ajudará. Esse estudo administrará aos participantes uma dose maior das bactérias intestinais – cerca de 12 vezes maior – distribuída ao longo de um mês.

“O que esperamos é que a modulação do microbioma possa levar a um ponto em que você não precise mais da sua EpiPen [injeção de adrenalina] e consiga ingerir certa quantidade de amendoim”, diz a coautora do estudo Rima Rachid, imunologista da Harvard Medical School.

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Transplante de microbiota fecal em casos de alergia alimentar em humanos e camundongos identifica um papel para os metabólitos de ácidos biliares na tolerância oral

A microbiota intestinal tem sido associada à patogênese da alergia alimentar (AA), motivando intervenções focadas na microbiota. Avaliou-se, em um estudo de fase 1 aberto, a segurança e a eficácia do transplante de microbiota fecal (TMF) oral encapsulado em 15 adultos com alergia a amendoim.

Observou-se um aumento no limiar de reatividade ao amendoim em 3 dos 10 participantes não pré-tratados com antibióticos e em 3 dos 5 participantes pré-tratados com antibióticos, sem ocorrência de problemas de segurança. Nos indivíduos respondedores, o TMF aumentou as células T reguladoras (células Treg) tolerogênicas RORγt+ e reduziu as células T auxiliares do tipo 2 (células TH2).

Camundongos que receberam transplante da microbiota de respondedores pós-TMF ficaram protegidos contra a AA, em associação com o aumento das porcentagens de células Treg RORγt+ e maior colonização por membros do gênero Bacteroides intestinal.

Tanto em humanos quanto em camundongos, a proteção conferida pelo TMF associou-se a níveis elevados de metabólitos de ácidos biliares. A deleção de uma enzima hidrolase de sais biliares em uma cepa candidata de Bacteroides protetora anulou a supressão da AA em camundongos.

Esses resultados sugerem que o TMF é uma modalidade terapêutica segura e potencialmente promissora para o tratamento da AA.

Leia sobre "Alergia ao amendoim", "Alergia a camarão" e "Alergia às proteínas do leite de vaca".

 

Fontes:
Science Translational Medicine, Vol. 18, Nº 861, em 05 de agosto de 2026.
Nature, notícia publicada em 05 de agosto de 2026.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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