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Pesquisadores criam nova molécula capaz de ativar as vias de morte celular em células cancerígenas

quarta-feira, 16 de agosto de 2023
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Pesquisadores criam nova molécula capaz de ativar as vias de morte celular em células cancerígenas

As células cancerígenas adquirem alterações genéticas que reprogramam a expressão de milhares de genes, para promover o rápido crescimento celular e bloquear vias que induzem a morte celular.

Em estudo publicado na revista Nature, pesquisadores de Stanford relatam o desenvolvimento de moléculas que transformam a BCL6, uma proteína que promove o câncer ao reprimir a transcrição de vários genes, em um ativador transcricional. As moléculas usadas para induzir essa transformação constituem uma nova classe de compostos para investigação como potenciais medicamentos anticancerígenos.

A pesquisa partiu da seguinte ideia: dentro de cada câncer existem moléculas que estimulam o crescimento mortal e incontrolável. E se os cientistas pudessem ligar essas moléculas a outras que fazem as células se autodestruírem? Poderiam os próprios condutores da sobrevivência de um câncer, em vez disso, ativar o programa para sua destruição?

Em experimentos de laboratório com células de um câncer no sangue, linfoma difuso de grandes células B, os pesquisadores projetaram e construíram moléculas que ligaram duas proteínas: BCL6, uma proteína mutante da qual o câncer depende para crescer agressivamente e sobreviver, e uma proteína celular normal que ativa qualquer gene do qual ela se aproxima.

A nova construção, uma molécula em forma de halter, é diferente de tudo visto na natureza. A BCL6, em uma extremidade do halter, guia a molécula em direção aos genes de morte celular que fazem parte do DNA de cada célula e são usados para se livrar das células que não são mais necessárias. Mas quando uma pessoa tem linfoma difuso de grandes células B, a BCL6 desativou esses genes de morte celular, tornando as células essencialmente imortais.

Quando o halter, guiado pela BCL6, se aproxima dos genes de morte celular, a proteína normal no final do halter arma esses genes. Ao contrário de outros processos na célula que podem ser revertidos, ativar os genes de morte celular é irreversível.

A nova abordagem pode ser uma melhoria em relação à difícil tarefa de usar medicamentos para bloquear todas as moléculas BCL6. Com as moléculas em forma de halteres, basta religar apenas uma porção das moléculas BCL6 para matar as células.

Leia sobre "Apoptose: o que é", "Linfoma" e "Câncer - informações importantes".

O conceito poderia funcionar para metade de todos os cânceres, que têm mutações conhecidas que resultam em proteínas que impulsionam o crescimento, segundo o Dr. Gerald Crabtree, biólogo do desenvolvimento em Stanford e autor do estudo. E como o tratamento depende das proteínas mutantes produzidas pelas células cancerígenas, ele pode ser extremamente específico, poupando as células saudáveis.

Dr. Crabtree explicou as duas áreas de descoberta que tornaram o trabalho possível. Uma delas é a descoberta de “genes condutores” – várias centenas de genes que, quando sofrem mutação, impulsionam a disseminação do câncer.

A segunda é a descoberta de vias de morte nas células. Esses caminhos, disse o Dr. Crabtree, “são usados para eliminar células que por um motivo ou outro começaram a agir descontroladamente” – caso de 60 bilhões de células em cada indivíduo todos os dias.

A missão era fazer com que os caminhos que impulsionam o crescimento das células cancerígenas se comunicassem com os caminhos silenciados que conduzem à morte celular, algo que normalmente não fariam.

Quando a molécula híbrida chegou ao DNA das células, ela não apenas ativou os genes de morte celular, mas também fez mais. A BCL6 guiou o híbrido para outros genes que o câncer havia silenciado. O híbrido ativou esses genes novamente, criando um caos interno na célula.

“A célula nunca experimentou isso”, disse o Dr. Louis Staudt, diretor do Centro de Genômica do Câncer no Instituto Nacional do Câncer nos Estados Unidos. O Dr. Staudt escreveu um editorial para acompanhar o artigo do Dr. Crabtree.

“A BCL6 é o princípio organizador dessas células cancerígenas”, explicou. Quando sua função é totalmente interrompida, “a célula perdeu sua identidade e diz: ‘algo muito errado está acontecendo aqui. É melhor eu morrer.’”

Mas o principal efeito do tratamento experimental foi ativar os genes da morte celular, disse o Dr. Crabtree. “Esse é o efeito terapêutico”, disse ele.

O grupo testou sua molécula híbrida em camundongos, onde parecia segura. Mas, observou o Dr. Staudt, “os humanos são muito diferentes dos ratos”.

Confira abaixo o resumo do artigo publicado.

Religando os condutores do câncer para ativar a apoptose

Genes que conduzem a proliferação, sobrevivência, invasão e metástase de células malignas foram identificados para muitos cânceres humanos. Estudos independentes identificaram vias de morte celular que eliminam as células para o bem do organismo.

A coexistência de vias de morte celular com mutações condutoras sugere que o condutor do câncer pode ser reconectado para ativar a morte celular usando indutores químicos de proximidade (CIPs, do inglês chemical inducers of proximity).

Neste estudo, descreveu-se uma nova classe de moléculas chamadas CIPs transcricionais/epigenéticas (TCIPs) que recrutam o condutor do câncer endógeno, ou um fator de transcrição a jusante, para os promotores de genes de morte celular, ativando assim sua expressão.

Os pesquisadores focaram no linfoma difuso de grandes células B, no qual o fator de transcrição do linfoma de células B 6 (BCL6) está desregulado. BCL6 se liga aos promotores de genes de morte celular e suprime epigeneticamente sua expressão.

Produziu-se TCIPs ligando covalentemente pequenas moléculas que ligam BCL6 àquelas que se ligam a ativadores transcricionais que contribuem para o programa oncogênico, como BRD4. A molécula mais potente, TCIP1, aumenta a ligação de BRD4 em 50% sobre os locais de ligação genômica de BCL6 para produzir alongamento transcricional em genes-alvo pró-apoptóticos em 15 minutos, enquanto reduz a ligação de BRD4 sobre intensificadores em apenas 10%, refletindo um mecanismo de ganho de função.

A TCIP1 mata linhas celulares do linfoma difuso de grandes células B, incluindo linhas mutantes TP53 resistentes à quimioterapia, em EC50 de 1-10 nM em 72 horas e exibe efeitos específicos de células e específicos de tecidos, capturando a especificidade combinatória inerente à transcrição.

O conceito de TCIP também tem aplicações terapêuticas na regulação da expressão de genes para medicina regenerativa e distúrbios do desenvolvimento.

Veja também sobre "Genética - conceitos básicos", "Mutações genéticas" e "Oncogênese".

 

Fontes:
Nature, publicação em 26 de julho de 2023.
The New York Times, notícia publicada em 26 de julho de 2023.

 

Créditos da imagem: Steve Gschmeissner/Science Source

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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