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Novas descobertas sobre a relação entre vício alimentar e vírus intestinais

terça-feira, 10 de dezembro de 2024
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Novas descobertas sobre a relação entre vício alimentar e vírus intestinais

Estudo recente revelou uma conexão intrigante entre o vício alimentar, ou dependência alimentar, caracterizado por comportamentos compulsivos como o consumo excessivo de alimentos, e vírus específicos presentes no intestino humano.

O eixo intestino-cérebro é um campo consolidado na ciência médica, com o microbioma intestinal assumindo papel importante na regulação do comportamento alimentar e dos circuitos neurológicos. Menos estudado, porém, é o impacto dos vírus intestinais, particularmente os bacteriófagos, na dinâmica microbiológica e em funções cerebrais.

No novo estudo, publicado na revista Nature Metabolism, pesquisadores identificaram que os bacteriófagos da família Microviridae, particularmente o Gokushovirus WZ-2015a, estão associados não apenas ao aumento da dependência alimentar, com maiores pontuações na Escala de Dependência Alimentar de Yale (YFAS), mas também a marcadores de obesidade, como maior circunferência abdominal.

Esses vírus parecem interferir diretamente no metabolismo de aminoácidos importantes, como o triptofano e a tirosina, que servem como precursores de neurotransmissores fundamentais, como a serotonina e a dopamina. Alterações nesses neurotransmissores impactam circuitos cerebrais de recompensa, de forma semelhante ao que ocorre em indivíduos expostos a substâncias como morfina e cocaína.

Leia sobre "Transtornos alimentares", "O que é compulsão alimentar" e "As relações entre intestino e cérebro".

Para demonstrar a relação causal, os pesquisadores realizaram transplantes de microbiota fecal e viral de humanos para camundongos. Os animais que receberam o vírus apresentaram comportamentos compulsivos relacionados ao consumo de alimentos, além de alterações metabólicas e na expressão de receptores de dopamina em diferentes regiões cerebrais.

Uma descoberta marcante foi o papel do ácido antranílico, um metabólito do triptofano, que se mostrou significativamente reduzido em indivíduos com maior carga viral. Quando suplementado em camundongos, esse metabólito não apenas reduziu os comportamentos de dependência alimentar, como também impactou vias de síntese de neurotransmissores. Em outro modelo experimental, utilizando Drosophila, observou-se que o ácido antranílico regula o comportamento alimentar e a preferência por etanol, reforçando sua relevância no controle de comportamentos compulsivos.

Esses achados abrem um campo de pesquisa promissor, com implicações para o desenvolvimento de tratamentos inovadores contra obesidade e vício alimentar, seja por meio da modulação do microbioma intestinal ou da suplementação de metabólitos específicos. Além disso, os resultados destacam o papel potencialmente perigoso de agentes virais transmissíveis no desenvolvimento de dependências alimentares, ampliando a compreensão da relação entre intestino e cérebro.

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Bacteriófagos Microviridae influenciam as características comportamentais do vício alimentar por meio das vias de sinalização do triptofano e da tirosina

O vício em comida contribui para a pandemia de obesidade, mas a conexão entre como o microbioma intestinal está ligado ao vício em comida permanece em grande parte obscura.

Neste estudo, mostrou-se que bacteriófagos Microviridae, particularmente Gokushovirus WZ-2015a, estão associados ao vício em comida e à obesidade em várias coortes humanas. Análises adicionais revelam que o vício em comida e o Gokushovirus estão ligados ao metabolismo da serotonina e da dopamina.

Camundongos que recebem transplante de microbiota fecal e viral de doadores humanos com a maior carga de Gokushovirus exibem aumento do vício em comida, acompanhado de mudanças no metabolismo de triptofano, serotonina e dopamina em diferentes regiões do cérebro, juntamente de alterações nos receptores de dopamina.

Mecanisticamente, a análise direcionada do triptofano mostra concentrações mais baixas de ácido antranílico (AA) associadas ao Gokushovirus. A suplementação de AA em camundongos diminui o vício em comida e altera as vias relacionadas ao ciclo de liberação da síntese de neurotransmissores. Em Drosophila, o AA regula o comportamento alimentar e a preferência por etanol semelhante ao vício.

Em resumo, este estudo propõe que os bacteriófagos no microbioma intestinal contribuem para a regulação do vício alimentar modulando o metabolismo do triptofano e da tirosina.

Veja também sobre "Microbioma intestinal humano", "Neurotransmissores - quais são e como agem" e "Os vícios e as suas caraterísticas".

 

Fonte: Nature Metabolism, publicação em 25 de novembro de 2024.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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