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Homem com paralisia pode andar ativando implantes de coluna com sua mente

segunda-feira, 29 de maio de 2023
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Homem com paralisia pode andar ativando implantes de coluna com sua mente

Gert-Jan Oskam morava na China em 2011 quando sofreu um acidente de moto que o deixou paralisado dos quadris para baixo. Agora, com uma combinação de dispositivos, os cientistas deram a ele o controle sobre a parte inferior do corpo novamente.

“Há 12 anos venho tentando me reerguer”, disse Oskam em entrevista coletiva na terça-feira. “Agora aprendi a andar normal, natural.”

Em um estudo publicado na revista Nature, pesquisadores da Suíça descreveram implantes que forneceram uma “ponte digital” entre o cérebro de Oskam e sua medula espinhal, contornando seções lesionadas. A descoberta permitiu que Oskam, 40, ficasse em pé, andasse e subisse uma rampa íngreme apenas com a ajuda de um andador. Mais de um ano após a inserção do implante, ele manteve essas habilidades e até apresentou sinais de recuperação neurológica, andando com muletas mesmo quando o implante estava desligado.

Os implantes permitem que seu cérebro envie sinais para sua coluna por meio de um computador em uma mochila. Oskam agora pode se levantar da posição sentada, subir escadas e caminhar do lado de fora em terreno irregular. “O estímulo vai entrar em ação assim que eu pensar em dar um passo”, diz ele.

Oskam também descobriu que, mesmo quando o dispositivo está desligado, ele consegue caminhar curtas distâncias com um andador com rodas. Grégoire Courtine, do Instituto Federal Suíço de Tecnologia (EPFL) em Genebra, e seus colegas, que desenvolveram a tecnologia, acreditam que isso pode ocorrer porque o exercício repetido estimulou o crescimento de células nervosas na coluna.

Leia sobre "Lesões da medula espinhal" e "Neuromodulação - para que serve".

Os implantes cerebrais estão contidos em dois discos de 5 centímetros que repousam na superfície do cérebro, tendo substituído dois círculos de osso retirados do crânio. Eles se comunicam sem fio com um receptor tipo um capacete, que envia sinais para um computador em uma mochila. O computador então envia sinais para estimuladores colocados na medula espinhal de Oskam, que desencadeiam movimentos dos músculos das pernas.

O sistema é um upgrade da primeira versão, que Oskam recebeu há cinco anos, e que envolvia apenas os eletrodos espinhais. Com esta primeira versão, Oskam ativava cada passo fazendo um pequeno movimento de calcanhar, o que ele podia fazer porque o acidente não havia rompido completamente sua medula espinhal. Os movimentos do calcanhar eram detectados por sensores de movimento leves, e isso fazia com que os implantes espinhais acionassem movimentos semiautomáticos coordenados por redes de neurônios na medula espinhal inferior.

Os passos resultantes permitiram que Oskam caminhasse em terreno plano usando um andador com rodas. “Isso parecia mais como um movimento de passo robótico”, diz Courtine.

Em 2021, Oskam conseguiu a atualização do implante cerebral. Poucos minutos após a cirurgia, ele conseguiu andar e isso levou a movimentos mais naturais. “Ele pode ajustar quando a estimulação é ativada e por quanto. Isso torna o movimento muito fluido”, diz Guillaume Charvet, da Universidade Grenoble Alpes, na França, outro membro da equipe.

“A estimulação antes estava me controlando e agora eu estou controlando a estimulação por meus pensamentos”, diz Oskam.

O sistema controlado pelo cérebro também leva a uma maior variedade de movimentos dos quadris, joelhos e tornozelos, diz Henri Lorach, membro da equipe da EPFL. “Ele pode acessar várias funções.”

A interface cérebro-espinha, como os pesquisadores a chamaram, aproveitou um decodificador de pensamento de inteligência artificial para ler as intenções de Oskam – detectáveis como sinais elétricos em seu cérebro – e combiná-las com os movimentos musculares. A etiologia do movimento natural, do pensamento à intenção e à ação, foi preservada. A única adição, como o Dr. Courtine descreveu, foi a ponte digital abrangendo as partes lesionadas da coluna.

Até agora, nove pessoas no total receberam apenas os implantes espinhais, controlando seus movimentos fazendo pequenos movimentos residuais de suas pernas, como fez Oskam, ou pressionando botões no andador. Alguns podem agora ter a atualização.

A equipe também tem aprovação para tentar usar a mesma abordagem para restaurar os movimentos do braço de pessoas paralisadas do pescoço para baixo.

“Este é um belo trabalho”, diz Zubair Ahmed, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido. “O que é legal sobre isso é que eles estão conectando muitas tecnologias.”

No entanto, o sistema ainda está nos estágios iniciais de desenvolvimento e seria muito caro para ser amplamente utilizado por outras pessoas com lesões na medula espinhal, diz ele.

No artigo, os pesquisadores contextualizam que uma lesão medular interrompe a comunicação entre o cérebro e a região da medula espinhal que produz o andar, levando à paralisia. No presente estudo, eles restauraram essa comunicação com uma ponte digital entre o cérebro e a medula espinhal que permitiu que um indivíduo com tetraplegia crônica se levantasse e andasse naturalmente em ambientes comunitários.

Essa interface cérebro-espinha (ICE) consiste em sistemas de gravação e estimulação totalmente implantados que estabelecem uma ligação direta entre os sinais corticais e a modulação analógica da estimulação elétrica peridural visando as regiões da medula espinhal envolvidas na produção da marcha.

Uma ICE altamente confiável é calibrada em poucos minutos. Essa confiabilidade permaneceu estável por mais de um ano, inclusive durante o uso independente em casa. O participante relata que a ICE permite o controle natural sobre os movimentos de suas pernas para ficar em pé, andar, subir escadas e até atravessar terrenos complexos.

Além disso, a neurorreabilitação apoiada pela ICE melhorou a recuperação neurológica. O participante recuperou a capacidade de andar com muletas no solo mesmo quando a ICE foi desligada.

Esta ponte digital estabelece uma estrutura para restaurar o controle natural do movimento após a paralisia.

Veja também sobre "Paraplegia" e "Tetraplegia".

 

Fontes:
Nature, publicação em 24 de maio de 2023.
New Scientist, notícia publicada em 24 de maio de 2023.
The New Yor Times, notícia publicada em 24 de maio de 2023.

 

Créditos da imagem: CHUV 2022/WEBER Gilles

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

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