NewsMed

Ensaios clínicos em humanos apontam o caminho para uma vacina de RNAm contra o HIV

terça-feira, 26 de agosto de 2025
Avalie este artigo
Ensaios clínicos em humanos apontam o caminho para uma vacina de RNAm contra o HIV

Gerar proteção eficaz contra o HIV pode exigir uma vacina complexa, composta por uma série de proteínas virais diferentes. Agora, dois ensaios clínicos que testaram os potenciais componentes administrados via RNA mensageiro (RNAm) produziram resultados promissores. A esperança é que a tecnologia de RNAm possibilite a administração da vacina em uma única injeção, em vez de exigir múltiplas injeções.

Vacinas normalmente contêm a proteína externa dos vírus, estimulando uma resposta imune contra a proteína. Desenvolver uma vacina contra o HIV é especialmente desafiador porque, nesse vírus, a proteína que se projeta da membrana externa é fortemente revestida de açúcares, dificultando a produção de anticorpos pelo nosso sistema imunológico contra ela. Ela também apresenta uma grande variedade entre as cepas, o que significa que, mesmo que o sistema imunológico de uma pessoa consiga produzir anticorpos eficazes, eles geralmente são específicos para apenas uma versão do vírus.

Mas alguns indivíduos produzem anticorpos amplamente neutralizantes que atuam contra muitas cepas. Estudos em animais sugerem que vacinas que consistem em uma sequência de diferentes formas de proteínas do HIV podem induzir de forma confiável essa resposta amplamente protetora, afirma William Schief, do Instituto de Pesquisa Scripps, na Califórnia.

A primeira parte da vacina é uma proteína viral modificada, projetada para estimular o corpo a produzir mais células B imunes necessárias para produzir anticorpos amplamente neutralizantes. Posteriormente, doses de reforço estimulam essas células a produzir anticorpos direcionados contra a proteína externa.

Para essa abordagem, faz sentido usar a tecnologia de vacinas de RNAm, porque os RNAms podem ser produzidos de forma relativamente rápida e fácil, afirma Schief. “É uma vantagem enorme.”

Leia sobre "Infecção pelo HIV" e "O que é a AIDS".

Uma única vacina de RNAm pode codificar várias proteínas virais diferentes simultaneamente, e pode até ser possível que elas sejam produzidas no corpo em momentos diferentes, afirma ele. Isso significa que uma vacina de RNAm contra o HIV poderia ser administrada em dose única, embora consista efetivamente em uma dose inicial seguida por vários reforços que normalmente seriam administrados separadamente. “O ideal seria receber uma única vacinação e parte do material só seria liberado mais tarde”, diz Schief.

No início deste ano, sua equipe relatou resultados encorajadores de um pequeno ensaio em humanos com a primeira dose inicial projetada para estimular células B. Agora, sua equipe testou um dos reforços posteriores em outro pequeno ensaio.

Quando voluntários receberam RNAm que codifica a proteína externa do HIV em uma forma que é incorporada às membranas celulares, 80% produziram anticorpos que, segundo testes de laboratório, são capazes de bloquear infecções.

Neste ensaio, esses anticorpos eram específicos para uma cepa. Os pesquisadores esperam que, quando o reforço for administrado como parte da sequência, para que cada componente seja produzido dentro do corpo na ordem correta, isso gere uma resposta mais ampla.

No entanto, em ambos os ensaios, um número maior do que o esperado de voluntários desenvolveu urticária, que em alguns casos persistiu por anos. Esse problema não surgiu em outros ensaios com vacinas de RNAm, nem em vacinas sem RNAm contendo a proteína do HIV, afirma Schief. Parece haver algo na administração da proteína do HIV via RNAm que pode desencadear esse efeito colateral. “É um mistério científico no momento”, afirma.

“Não saber o que causa esse efeito adverso significa que será difícil preveni-lo”, afirma Hildegund Ertl, especialista em vacinas que atualmente trabalha na empresa Pharma5, no Marrocos.

Ertl concorda que a tecnologia de RNAm permite testes rápidos dos componentes da vacina, mas acredita que o produto final pode ser melhor administrado por um tipo diferente de vacina, como as produzidas com cápsulas virais vazias. Essas vacinas podem ser armazenadas em temperatura ambiente, por exemplo, em vez de exigir refrigeração, afirma ela.

Existe agora um medicamento chamado lenacapavir que oferece proteção quase completa contra a infecção pelo HIV com duas injeções por ano. No entanto, Schief acredita que uma vacina ainda é necessária. “Estamos todos buscando produzi-la o mais rápido possível”, afirma, mas mesmo com o progresso acelerado pela tecnologia de RNAm, uma vacina aprovada contra o HIV provavelmente ainda levará décadas.

Confira a seguir o resumo do artigo mais recente publicado pela equipe.

A vacinação com trímeros da proteína de envelope do HIV ancorados à membrana e codificados por RNAm induziu anticorpos neutralizantes contra vírus tier 2 em um ensaio clínico de fase 1

Vacinas contra o vírus da imunodeficiência humana (HIV) geralmente têm como alvo o trímero da proteína do envelope (Env), presente na superfície dos vírions. No entanto, as vacinas à base de proteínas exigem que o trímero do Env seja solúvel; isso cria um sítio na base do Env para a ligação dos anticorpos incapaz de conferir proteção contra a infecção.

Em dois artigos, pesquisadores utilizaram vacinas de RNAm para contornar esse problema, indicando que a tecnologia de RNAm pode acelerar o desenvolvimento de uma vacina preventiva urgente contra o HIV. Os RNAms são traduzidos em proteínas dentro das células do receptor da vacina, permitindo aos autores produzir versões do trímero do Env ligadas à membrana.

No estudo, avaliou-se a segurança e a imunogenicidade de três trímeros de envelope codificados por RNAm, incluindo duas doses de formas solúveis e ancoradas à membrana, em um ensaio clínico de fase 1, randomizado e aberto.

As vacinas foram geralmente bem toleradas, embora 6,5% (7 de 108) dos participantes tenham desenvolvido urticária, uma proporção maior do que a observada com outras vacinas de RNAm.

Os trímeros codificados por RNAm induziram fortes respostas de células B e T específicas do envelope. A imunização com trímeros ancorados à membrana, com o objetivo de obscurecer epítopos na base do trímero alvo de anticorpos não neutralizantes, reduziu a frequência de anticorpos séricos de ligação à base em comparação com os trímeros solúveis.

Três imunizações produziram anticorpos neutralizantes séricos autólogos contra tier 2 em 80% dos vacinados que receberam os trímeros ancorados à membrana, em contraste com apenas 4% que receberam o trímero solúvel.

Assim, com uma demonstração de segurança mais favorável, os trímeros do envelope do HIV ancorados à membrana codificados por RNAm podem representar uma plataforma promissora para o desenvolvimento clínico de vacinas contra o HIV.

Veja também sobre "Sistema imunológico" e "Antígenos e anticorpos".

 

Fontes:
Science Translational Medicine, Vol. 17, N° 809, em 30 de julho de 2025.
New Scientist, notícia publicada em 30 de julho de 2025.

 

Nota ao leitor:

As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.

Comentários